Eles vieram prá ficar!

01/03/2020

São a cara do Brasil, mas falam espanhol.

No Direito, tenho a grata confiança de ouvir as pessoas sobre seus problemas e buscar ajudá-los. Mas confesso que cada dia, é um novo aprendizado. Conheci dois profissionais qualificados que me procuraram para fazer uma Opção de Nacionalidade.

Filhos de pais brasileiros tem essa possibilidade, com fundamento, no Art. 12 da Constituição Federal, ainda que tivessem passado uma vida toda na Venezuela.

Aproveitei para colocar meu portunhol em execução e sintonizar o ouvido para um tom que muito ouvi do grande mestre Jesus Garrido, hoje residente em Torreon, no México. “O Chefão”, como carinhosamente o chamávamos. Aliás, uma das lideranças mais fantásticas que tive o privilégio de conhecer e aprender. Tenho que falam parecido e rápido por demais. Mas isso é próprio da velocidade dos seus pensamentos.

Fiquei impressionada com tamanho conhecimento e pela exatidão com que buscavam seus direitos. Com roupas sem nenhum decoro, humildemente externaram a vontade de morar no Brasil e construir aqui o futuro.

Ainda que o Direito assim estabeleça essa Opção de Nacionalidade, tive que dizer que não conseguiria dar continuidade ao pedido, porque faltava preencher um dos requisitos legais impostos pela lei. Ter moradia fixa e comprovada. Isso eles não tinham, pois moravam na rua, ou melhor, em redes, no Berço Nacional da Soja.

Procuravam emprego com uma qualificação gigantesca e ainda por cima falavam inglês. I don´t believe. Não podia crer que um engenheiro elétrico e um administrador, pudessem ter deixado suas carreiras, famílias e uma história para ir em busca de comida e sustento para seus filhos aqui no Brasil. Lá passavam fome, sofreguidão e viviam sob pressão.

Hoje ganham as ruas da nossa região procurando emprego, em qualquer lugar, desde que possam ganhar o sustento e então trazer a família para junto deles.

Impossível não se emocionar com histórias tão verdadeiras e profundas.

Por momentos tive vontade de fechar os olhos e somente ouví-los, porque a expressão que conduzia suas falas era de executivos e de quem tinha muito a contribuir com a sociedade empreendedora.

E comigo também, pela legitimidade e força de vontade de seguir em frente, com exemplos de esperança.

Eu espero ansiosa a volta deles, com a comprovação da residência e o sorriso no olhar.

Mais que optarem por ser brasileiros, que eles consigam amparo e trabalho nesta ou naquela cidade.

Já que pessoas absolutamente diferenciadas podem estar em qualquer lugar, por vezes na rua, vestidos como mendigos, mas ricos em conhecimento e valorosos em experiências.

E precisam apenas de uma oportunidade para mostrar quem são.

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